A Vida de Maria
(Você está escutando a música "Renova-me")

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Apresentação de Nossa Senhora no Templo

A Memória que a Igreja celebra no dia 21 de novembro não encontra fundamentos explícitos nos Evangelhos Canônicos, mas algumas pistas no chamado Proto-evangelho de Tiago, Livro de Tiago, ou ainda, História do nascimento de Maria. A validade do acontecimento que lembramos possui real alicerce na Tradição que a liga à Dedicação da Igreja de Santa Maria Nova, construída em 534, perto do templo de Jerusalém.
Os manuscritos não canônicos, contam que Joaquim e Ana, por muito tempo não
tinham filhos, até que nasceu Maria, cuja infância se dedicou totalmente, e
livremente a Deus, impelida pelo Espírito Santo desde sua concepção imaculada.
Tanto no Oriente, quanto no Ocidente observamos esta celebração mariana nascendo
do meio do povo e com muita sabedoria sendo acolhida pela Liturgia Católica, por
isso esta festa aparece no Missal Romano a partir de 1505, onde busca exaltar a
Jesus através daquela muito bem soube isto fazer com a vida, como partilha Santo
Agostinho, em um dos seus Sermões:
" Acaso não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que creu pela fé, pela fé
concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a salvação;
criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado? Fez Maria totalmente a
vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe
de Cristo; maior felicidade em ser discípula do que mãe de Cristo. E assim Maria
era feliz porque já antes de dar à luz o Mestre, trazia-o na mente ".

Antes de conceber Jesus na sua carne, Maria O concebeu pela fé. Na Anunciação, Maria ofereceu a Deus o voluntário Dom da sua submissão. Assim foi mostrada a relação de amor esponsal entre Deus e a criatura humana.
Maria tinha fé expressa na
Encarnação futura (Profecia de Isaías 7). A sua fé em Deus precede a Anunciação,
mas é realizada pela fé na pregação do anjo. Toda obra salvífica tem Deus como
autor, mas este a prepara e realiza pela mediação de alguns escolhidos, não par
receber privilégios privados, particulares, mas para serem canais da ação de
Deus no meio dos homens. Podemos observar os vários "anúncios" da parte de Deus,
encontrados no Antigo testamento, nos quais Ele chamou "mediadores, que recebiam
Graças extraordinárias sempre compatíveis com a missão que deveriam desempenhar
para benefício de um povo (Jacó, Gedeão, Jeremias). Estes homens manifestam
assim anúncios de vocações, que continham algum aspecto do chamado à Maria, mas
não todos os aspectos, porque seu chamado foi essencialíssimo, superando todos
os anteriores. Deus escolhe homens simples para grandiosas missões. O relato da
Anunciação `à Maria deve ser situado em continuidade com a história do plano
Salvífico de Deus.
Veja: Lc 1,28b a 30 - Tal saudação traduz o convite a alegrar-se pela escolha divina de si mesma e de seu povo, o povo de Deus.
Os Filhos de Sião são
aqueles resto de Israel, povo humilde e humilhado, mas renovado pelo Amor de
Deus. Segundo documentos do Magistério da Igreja, o termo "Filha de Sião"
realmente é aplicável a Maria: O Salmo 87 diz que Sião se transformará em "mãe
de todas as nações", e Maria realmente se transformou em "Mãe dos Filhos de
Deus". A Expressão "Cheia de Graça" Substitui o nome de Maria , indica a missão
e unção recebida da parte de Deus: O título anuncia o papel de Maria na história
da Salvação, mas indica que Deus já fez de tal maneira a dispô-la para este
papel. Preparada com a plenitude da Graça para uma missão específica na Salvação
trazida pôr Jesus Cristo, ela é a imagem da atuação criadora de Deus, santa pôr
obra divina, e não pôr simples esforço humano. Maria não é chamada a ser
simplesmente mãe física daquele menino, mas a mãe do Herdeiro da promessa
Davídica. Sem dúvida, Maria não sabia, no momento da Anunciação, todas as
modalidades da Obra Redentora. No Antigo Testamento, várias mulheres estéreis
deram milagrosamente à luz seus filhos predestinados(Que tinham um papel na
história da salvação): Gen. 18,11; Jz 13, 4ss; 1sm 1,11; Gen. 30,23. Quanto a
Nossa Senhora , o milagre foi singular, ultrapassando todas as outras
manifestações milagrosas do AT: A maternidade e a virgindade consagrada são duas
vocações distintas, que Deus conciliou em Maria, não em duas fases, mas
simultaneamente, e perpetuamente. Maria, cuja virgindade se tornou eloqüente na
intervenção onipotente de Deus na historia do homem, é assim modelo e
intercessora das duas vocações: o matrimônio, e a virgindade consagrada.
"Eis aqui a serva do Senhor" Maria assume uma posição de PERTENCER ao Senhor, e
de se colocar debaixo da Sua proteção. Ser Serva de Deus significa sempre Ter um
bom Senhor, jamais servidão no sentido negativo. Se Maria é serva humilde, então
lhe resta apenas abrir-se à ação da Palavra de Deus, como uma israelita fiel, em
nome do povo. Maria reconhece a Deus como autor de toda a obra salvadora que Ele
quer realizar pôr ela, e aceita na fé colaborar, ser mediadora na intervenção
divina, como foram no AT Abraão e Moisés, e as mulheres chamadas a libertar o
povo.
A Anunciação do anjo não se dirige apenas a Maria, mas à humanidade e à igreja,
pôr intermédio de Maria. Dizendo "sim "à maternidade, Maria disse à obra de seu
Filho. Maria, pôr seu sim maternal, comprometeu realmente a sorte da humanidade.
Essa obra salvadora começa a realizar-se em Maria, pôr sua livre aceitação
obediente pôr meio da fé. É Deus quem será o autor da obra, mas atuará nela.
Deus, é o único autor na obra salvífica. Na concepção de Jesus, Deus quer a
livre aceitação de Maria, para que se veja que cada homem fará sua Salvação pôr
um ato de aceitação livre e pessoal.
A fé de Maria: É digna de admiração a total disponibilidade e esquecimento de si que percebemos em Maria. Maria tem consciência da vontade de Deus e se mantém na simplicidade. Deus é toda a sua riqueza e posse. Ela está totalmente a serviço da Palavra Criadora de Deus. A fé de Maria é mais preciosa do que sua maternidade, que é fruto da fé. Pôr isso sua fé, teve de crescer em meio à escuridão, junto com a experiência do crescimento do Filho, e à luz da palavra.
A Visitação de Nossa Senhora a Isabel

Na Visitação, Isabel, a prima de Maria, exulta de alegria no Espírito Santo, e
proclama quão bendita é Maria, e quão bendito é o fruto do seu ventre. De fato,
não existe senão uma bênção, expressa em Maria e no divino fruto que ela
carrega. Maria leva em seu ventre a maior bênção que Deus dará ao mundo. E Maria
sob a inspiração do mesmo Espírito Santo que inspirou Isabel, vai louvar à Deus,
que fez nela maravilhas. Mas ela não vai evocar no Magnificat somente o grande
acontecimento que é a maternidade divina, mas todas as maravilhas que Deus
realizara através dela, em todas as gerações que virão. A presteza de Maria, em
visitar Isabel é física, cronológica, pois realmente o termo hebraico significa
"apressadamente". Mas tal diligência e disponibilidade não nascem de um simples
desejo humano de "ajudar "a prima numa necessidade, nem de duvidas acerca do que
Deus lhe tinha revelado pelo anjo, mas de uma grande disponibilidade de
Espírito, conseqüência da alegria que lhe proporcionou sua vocação, de esperança
que transborda de sua alma. Maria não foi para "checar o sinal, mas para
contemplá-lo. Só que, chegando lá, ela própria criou um novo sinal: ... a
criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espirito Santo". A
saudação de Maria provoca o sinal preparado pôr Deus: O movimento natural da
criança no seio de sua mãe converte-se em sinal de gozo e simpatia, suscitado
pelo encontro. E a paz que Maria anuncia irrompe sobre Isabel e sobre a vida que
se move no seio da anciã. E Maria então contempla o sinal de Deus: a vida que
leva em seu seio é portadora de alegria escatológica e de paz. Maria evangeliza
com a sua presença e a reação dos evangelizados evangeliza a própria Maria. O
encontro com Maria fez com que Isabel ficasse cheia do Espírito Santo e
profetizasse. O Espírito de profecia trepai sobre ela numa antecipação do que
vai acontecer em Pentecostes algum tempo depois: a vinda do Espírito Santo sobre
os discípulos. Proclama que Deus abençoou o seio de Maria tornando-o
prodigiosamente fecundo, reconhece que Maria é autêntica Mãe do Messias, e
profetiza a bem-aventurança que Jesus vai proclamar futuramente (Lc 11,28) sobre
aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam (Feliz és tu que acreditastes)
Sobre Isabel repousa a paz de Maria.
O Magnificat, desde o século I que a igreja reza com este cântico na sua
Liturgia, proclamando pôr um lado a história da Salvação realizada em Israel e
pôr outro a obra efetuada pôr Deus através da maternidade de Maria. Percebe-se
assim que a comunidade cristã, desde o início, já vê Maria como modelo e figura
da Igreja, reconhecendo que verá acontecer em si o que ocorreu a Maria, tanto
que Sto Irineu diz: "Maria, cheia de alegria, exclama profetizando a Igreja:
minha alma engrandece ao Senhor". Em seu cântico, Maria representa Israel, para
quem se cumpriram as promessas da Salvação. Maria recolhe os anseios de todo o
AT, que se alegre pela Salvação futura. Em seu louvor está incluída a atitude de
todos aqueles que experimentaram a satisfação pela intervenção de Deus ao mandar
o Messias. No louvor de Maria está condensado o louvor da Igreja.
O Magnificat não pode ser
compreendido sem Maria. Tampouco sem a Igreja, pois ele não expressa apenas os
sentimentos de Maria, mas também os sentimentos da comunidade cristã que
experimentou a vitória de Deus sobre a morte de Jesus na Ressurreição. A fé da
Igreja se manifesta neste cântico, saído da fé profunda de Maria na Visitação.
Aquilo que desde a Anunciação permanecia oculto na profundidade da obediência à
fé, manifesta-se agora claramente, como uma chama vivificante do Espírito. As
palavras usadas pôr Maria no umbral da casa de Isabel, que nos fazem vislumbrar
sua experiência pessoal e êxtase de seu coração, constituem uma inspirada
profissão de fé, na qual a resposta à palavra da Revelação se expressa com a
elevação espiritual e poética de todo o seu ser a Deus.
Mas o Magnificat propõe à
igreja a melhor resposta humana que se pode dar à proposta de Deus. Ao
identificarmo-nos com os sentimentos de Maria, chegamos à verdade sobre Deus,
sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo... Entendemos que a verdade de Deus (a
única verdade) não é uma verdade teórica, mas histórica, uma verdade que
acontece, que se realiza e nos realiza. Maria é a primeira testemunha da
maravilhosa verdade sobre Deus, que se realizará plenamente mediante o que fez e
ensinou Seu Filho, e definitivamente, mediante Sua cruz e Ressurreição.
Maria é a primeira
testemunha da verdade sobre o homem, porque anuncia o amor misericordioso de
Deus pôr ele. O Deus do Magnificat, o verdadeiro Deus, se derrama totalmente
sobre o homem, especialmente sobre o mais necessitado, tanto física, como
psicologicamente e espiritualmente.
O Magnificat é assim o
modelo acabado de oração e de vida de louvor no Espírito.
Apresentação de Jesus no Tempo e Purificação de Nossa Senhora

Embora esta festa de 2 de fevereiro caia fora do tempo de natal, é parte
integrante do relato de natal. É uma faísca do natal, é uma epifania do
quadragésimo dia. Natal, epifania, apresentação do Senhor são três painéis de um
tríptico litúrgico.
É uma festa antiqüíssima de origem oriental. A Igreja de
Jerusalém já a celebrava no século IV. Era celebrada aos quarenta dias da festa
da epifania, em 14 de fevereiro. A peregrina Eteria, que conta isto em seu
famoso diário, acrescenta o interessante comentário de que se "celebrava com a
maior alegria, como se fosse páscoa"'. De Jerusalém, a festa se propagou para
outas igrejas do Oriente e do Ocidente. No século VII, se não antes, havia sido
introduzida em Roma. A procissão com velas se associou a esta festa. A Igreja
romana celebrava a festa quarenta dias depois do natal.
Entre as igrejas orientais esta festa era conhecida como "A
festa do Encontro" (em grego, Hypapante), nome muito significativo e expressivo,
que destaca um aspecto fundamental da festa: o encontro do Ungido de Deus com
seu povo. São Lucas narra o fato no capítulo 2 de seu evangelho. Obedecendo à
lei mosaica, os pais de Jesus o levaram ao templo quarenta dias depois de seu
nascimento para apresentá-lo ao Senhor e fazer uma oferenda por ele 1.
Esta festa começou a ser conhecida no Ocidente, a partir do
século X, com o nome de Purificação da bem-aventurada virgem Maria. Foi incluída
entre as festas de Nossa Senhora. Mas isto não totalmente correto, já que a
Igreja celebra neste dia, essencialmente, um mistério de nosso Senhor. No
calendário romano, revisado em 1969, o nome foi mudado para "A Apresentação do
Senhor". Esta é uma indicação mais verdadeira da natureza e do objeto da festa.
Entretanto, isso não quer dizer que subestimemos o papel importantíssimo de
Maria nos acontecimentos que celebramos. Os mistérios de Cristo e de sua mãe
estão estreitamente ligados, de maneira que nos encontramos aqui com uma espécie
de celebração dupla, uma festa de Cristo e de Maria.
A bênção das velas antes da missa e a procissão com as velas
acesas são características chocantes da celebração atual. O missal romano
manteve estes costumes, oferecendo duas formas alternativas de procissão. é
adequado que, neste dia, ao escutar o cântico de Simeão no evangelho (Lc
2,22-40), aclamemos a Cristo como "luz para iluminar às nações e para dar glória
a teu povo, Israel".
Significado da festa
A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro; a chegada do Salvador
esperado, núcleo da vida religiosa do povo, e as boas-vindas concedida a ele por
dois representantes dignos da raça eleita, Simeão e Ana. Por sua proveta idade,
estes dois personagens simbolizam os séculos de espera e de fervoroso anseio dos
homens e mulheres devotos da antiga aliança. Na realidade, representam a
esperança e o anseio da raça humana.
Ao reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as
boas-vindas a Cristo. Esse é o verdadeiro sentido da festa. É a "Festa do
Encontro", o encontro de Cristo e sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração
litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar as
boas-vindas a Cristo e a sua mãe, como o fez seu próprio povo de então: "Ó Sião,
enfeita teu quarto nupcial e dá boas-vindas a Cristo Rei; abraça a Maria, porque
ela é a verdadeira porta do céu e traz o glorioso Rei da luz nova"2.
Ao dramatizar desta maneira a lembrança deste encontro de
Cristo com Simeão, a Igreja nos pede que professemos publicamente nossa fé na
Luz do mundo, luz de revelação para todo povo e pessoa.
Na belíssima introdução à benção das velas e a procissão, o
celebrante lembra como Simeão e Ana, guiados pelo Espírito, vieram ao templo e
reconheceram a Cristo como seu Senhor. E conclui com o seguinte convite: "Unidos
pelo Espírito, vamos agora à casa de Deus dar as boas-vindas a Cristo, o Senhor.
O reconheceremos na fração do pão até que venha novamente em sua glória".
Refere-se claramente ao encontro sacramental, ao que a
procissão serve de prelúdio. Respondemos ao convite: "Vamos em paz ao encontro
do Senhor"; e sabemos que este encontro será na eucaristia, na palavra e no
sacramento Entramos em contato com Cristo através da liturgia; por ela temos
também acesso a sua graça. Santo Ambrósio escreve deste encontro sacramental em
uma página insuperável: "Te revelaste face a face, ó Cristo. Em teus sacramentos
te encontro".
Função de Maria. A festa da apresentação é, como dissemos,
uma festa de Cristo antes do que qualquer outra coisa. É um mistério de
salvação. O nome "apresentação" tem um conteúdo muito rico. Fala de
oferecimento, sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, palavra
encarnada, quando entrou no mundo: “Eis-me aqui para fazer tua vontade". Aponta
à vida de sacrifício e à perfeição final dessa auto-oblação na colina do
Calvário.
Dito isto; temos que passar a considerar o papel de Maria
neste acontecimentos salvíficos. Depois de tudo, ela é a que apresenta a Jesus
no templo; ou, mais corretamente, ela e seu esposo José, pois ambos pais são
mencionados. E perguntamos: Tratava-se exclusivamente de cumprir o ritual
prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros pais? Ou guardava uma
significação muito mais profunda que tudo isto? Os padres da Igreja e a tradição
cristã respondem que sim.
Para Maria, a apresentação e oferenda de seu filho no templo
não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, ela não era consciente de
todas as implicações nem da significação profética deste ato. Ela não contemplar
todas as conseqüências de seu fiat na anunciação. Mas foi um ato de oferecimento
verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu filho para a obra da
redenção com a que ele estava comprometido desde o princípio. Ela renunciava a
seus direitos maternais e a toda pretensão sobre ele; e o oferecia à vontade do
Pai. São Bernardo expressou muito bem isto: "Oferece teu filho, santa Virgem, e
apresenta ao Senhor o fruto bendito de teu ventre. Oferece, para reconciliação
de todos nós, a santa Vítima que é agradável a Deus'3.
Há um novo simbolismo no fato de que Maria coloca a seu filho
nos braços de Simeão. Ao agir desta maneira, ela não o oferece exclusivamente ao
Pai, mas também ao mundo, representado por aquele ancião. Dessa maneira, ela
representa seu papel de mãe da humanidade, e nos lembra que o dom da vida em
através de Maria.
Existe uma conexão entre este oferecimento e o que acontecerá
no Gólgota quando serão executadas todas as implicações do ato inicial de
obediência de Maria: "Faça-se em mim segundo tua palavra". Por essa ração, o
evangelho desta festa carregada de alegria não nos exime da nota profética: "Eis
que este menino está destinado para a queda e ressurgimento de muitos em Israel;
será sinal de contradição, e uma espada atravessará tua alma, para que sejam
descobertos os pensamentos de muitos corações" (Lc 2,34-35).
O encontro futuro. A festa de hoje não se limita a nos
permitir reviver um acontecimento passado, mas nos projeta para o futuro.
Prefigura nosso encontro final com Cristo em sua segunda vinda. São Sofrônio,
patriarca de Jerusalém desde o ano de 634 até sua morte, em 638, expressou isto
com eloqüência: "Por isso vamos em procissão com velas em nossas mãos e nos
apressamos carregando luzes; queremos demonstrar que a luz brilhou para nós e
significar a glória que deve chegar através dele. Por isso vamos juntos ao
encontro com Deus".
A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus
caminha penosamente através deste mundo do tempo, guiado pela luz de Cristo e
sustentado pela esperanças de encontrar finalmente ao Senhor da glória em seu
reino eterno. O sacerdote diz na benção das velas: "Que quem as levas para
enaltecer tua glória caminhemos no caminho de bondade e vamos à luz que brilha
para sempre".
A vela que levamos em nossas mão lembra a vela de nosso
batismo. E o sacerdote diz: " guardem a chama da fé viva em seus corações. Que
quando o Senhor vier saiam a seu encontro com todos os santos no reino
celestial". Este será o encontro final, a apresentação , quando a luz da fé se
converter na luz da glória. Então será a consumação de nosso mais profundo
desejo, a graça que pedimos na pós-comunh4ao da missa:
Por estes sacramentos que recebemos, enche-nos com tua graça,
Senhor, tu que encheste plenamente a esperança de Simeão; e assim como não o
deixaste morrer sem ter segurando Cristo nos braços, concede a nós, que
caminhamos ao encontro do Senhor, merecer o prêmio da vida eterna.

1. Embora tenha ocorrido por obra do Espírito Santo e de uma Mãe Virgem, a geração de Jesus, como a de todos os homens, conheceu as fases da concepção, da gestação e do parto. Além disso, a maternidade de Maria não se limitou apenas ao processo biológico do gerar, mas, como ocorre para qualquer outra mãe, deu também uma contribuição essencial para o crescimento e o desenvolvimento do filho. Mãe é não só a mulher que dá à luz um filho, mas aquela que o cria e o educa; antes, podemos dizer que a tarefa educativa é, segundo o plano divino, o prolongamento natural da procriação. Maria é Theotokos não só porque gerou e deu à luz o Filho de Deus, mas também porque O acompanhou no seu crescimento humano.
2. Poder-se-ia pensar que Jesus, possuindo em Si a plenitude da divindade, não tenha tido necessidade de educadores. Mas o mistério da Encarnação revela-nos que o Filho de Deus veio ao mundo numa condição humana em tudo semelhante à nossa, exceto no pecado (cf. Heb. 4, 15). Como acontece para cada ser humano, o crescimento de Jesus, da infância até à idade adulta (cf. Lc. 2, 40), precisou da ação educativa dos pais. O Evangelho de Lucas, particularmente atento ao período da infância, narra que Jesus em Nazaré era submisso a José e a Maria (cf. Lc. 2, 51). Essa dependência mostra-nos Jesus na disposição a receber, aberto à obra educativa de sua mãe e de José, que exerciam a sua tarefa também em virtude da docilidade por Ele constantemente manifestada.
3. Os dons especiais, de que Deus tinha colmado Maria, tornavam-na particularmente idônea a desempenhar a tarefa de mãe e educadora. Nas circunstâncias concretas de todos os dias, Jesus podia encontrar nela um modelo a seguir e a imitar, e um exemplo de amor perfeito para com Deus e os irmãos. Ao lado da presença materna de Maria, Jesus podia contar com a figura paterna de José, homem justo (cf. Mt 1, 19) que assegurava o necessário equilíbrio da ação educativa. Exercendo a função de pai, José cooperou com a sua esposa para tornar a casa de Nazaré um ambiente favorável ao crescimento e à maturação pessoal do Salvador da humanidade. Iniciando-O depois no duro trabalho de carpinteiro, José permitiu a Jesus inserir-se no mundo do trabalho e na vida social.
4. Os poucos elementos que o Evangelho oferece, não nos consentem conhecer e avaliar completamente as modalidades da ação pedagógica de Maria para com o seu Filho divino. Sem dúvida, foi ela, juntamente com José, que introduziu Jesus nos ritos e prescrições de Moisés, na oração ao Deus da aliança mediante o uso dos Salmos, na história do povo de Israel centrada no êxodo do Egito. Dela e de José, Jesus aprendeu a freqüentar a sinagoga e a realizar a peregrinação anual a Jerusalém, por ocasião da Páscoa. Olhando para os resultados, podemos sem dúvida deduzir que a obra educativa de Maria foi muito incisiva e profunda, e encontrou na psicologia humana de Jesus um terreno muito fértil.
5. A tarefa educativa de Maria, dirigida para um filho tão singular, apresenta algumas características particulares em relação ao papel das outras Mães. Ela garantiu apenas as condições favoráveis para que se pudessem realizar os dinamismos e os valores essenciais de um crescimento, já presentes no Filho. Por exemplo, a ausência em Jesus de qualquer forma de pecado exigia de Maria uma orientação sempre positiva, com a exclusão de intervenções corretivas para com Ele. Além disso, se foi a Mãe que introduziu Jesus na cultura e nas tradições do povo de Israel, será Ele, desde o episódio do encontro no Templo, a revelar a plena consciência de ser o Filho de Deus, enviado para irradiar a verdade no mundo, seguindo exclusivamente a vontade do Pai.
De "mestra" do seu filho, Maria torna-se assim a humilde discípula do divino Mestre por ela gerado. Permanece a grandeza da tarefa da Virgem Mãe: desde a infância até à idade adulta, ela ajudou o Filho Jesus a crescer "em sabedoria, em estatura e em graça" (Lc. 2, 52) e a formar-se para a Sua missão. Maria e José emergem por isso como modelos de todos os educadores.
Eles sustêm-nos nas grandes dificuldades que hoje encontra a família e mostram-lhes o caminho para chegar a uma formação incisiva e eficaz dos filhos. A sua experiência educadora constitui um ponto de referência seguro para os pais cristãos, chamados, em condições cada vez mais complexas e difíceis, a pôr-se ao serviço do desenvolvimento integral da pessoa dos seus filhos, para que vivam uma existência digna do homem e correspondente ao projeto de Deus.
Jesus e Maria nas Bodas de Caná

1. Ao narrar a presença de Maria na vida pública de Jesus, o Concílio Vaticano II recorda a sua participação em Caná por ocasião do primeiro milagre: "Nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cf. Jo. 2, 1-11)" (LG, 58). Seguindo a esteira do evangelista João, o Concílio faz notar o papel discreto e, ao mesmo tempo, eficaz da Mãe que, com a sua palavra, leva o filho ao "primeiro sinal". Ela, embora exerça uma influência discreta e materna, com a sua presença resulta, no final, determinante. A iniciativa da Virgem aparece ainda mais surpreendente se se considera a condição de inferioridade da mulher na sociedade judaica.
Em Caná, com efeito, Jesus não só reconhece a dignidade e o papel do gênio feminino, mas, acolhendo a intervenção de Sua Mãe, oferece-lhe a possibilidade de ser partícipe na obra messiânica. Não contrasta com esta intenção de Jesus o apelativo "Mulher", com o qual Ele se dirige a Maria (cf, Jo. 2, 4). Ele, de fato, não contém em si nenhuma conotação negativa e será de novo usado por Jesus em relação à Mãe, aos pés da Cruz (cf. Jo. 19, 26). Segundo alguns intérpretes, este título "mulher" apresenta Maria como a nova Eva, Mãe de todos os crentes na fé.
O Concílio, no texto citado, usa a expressão "movida de compaixão", deixando entender que Maria era inspirada pelo seu coração misericordioso. Tendo divisado a eventualidade do desapontamento dos esposos e dos convidados pela falta de vinho, a Virgem compadecida sugere a Jesus que intervenha com o seu poder messiânico. A alguns o pedido de Maria parece desproporcionado, porque subordina a um ato de piedade o início dos milagres do Messias. À dificuldade respondeu Jesus mesmo que, com o seu assentimento à solicitação materna, demonstra a superabundância com que o Senhor responde as expectativas humanas, manifestando também quanto pode o amor de uma Mãe.

2. A expressão "dar início aos milagres" que o Concílio retomou do texto de João, chama a nossa atenção. O termo grego archè, traduzido por início, princípio, foi usado por João no prólogo do seu Evangelho: "No principio já existia o Verbo" (1, 1). Esta significativa coincidência induz a estabelecer um paralelo entre a primeira origem da glória de Cristo na eternidade e a primeira manifestação da mesma glória na sua missão terrena. Ressaltando a iniciativa de Maria no primeiro milagre e recordando depois a sua presença no Calvário, aos pés da Cruz, o evangelista ajuda a compreender como a cooperação de Maria se estende à inteira obra de Cristo.
O pedido da Virgem coloca-se no interior do desígnio divino de salvação. No primeiro sinal operado por Jesus os Padres da Igreja divisaram uma forte dimensão simbólica, acolhendo, na transformação da água em vinho, o anúncio da passagem da antiga à nova Aliança. Em Caná precisamente a água das jarras, destinada à purificação dos Judeus e ao cumprimento das prescrições legais (cf. Mc. 7, 1-15), torna-se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união definitiva entre Deus e a humanidade.

3. O contexto de um banquete de núpcias, escolhido por Jesus para o Seu primeiro milagre, remete ao simbolismo matrimonial, freqüente no Antigo Testamento para indicar a Aliança entre Deus e o Seu povo (cf. Os. 2, 21; Jer. 2, 1-8; SI. 44; etc.) e no Novo Testamento para significar a união de Cristo com a Igreja (cf. Jo. 3, 28-30; Ef. 5, 25-32; Ap. 21, 1-2; etc.).
A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projeto salvífico de Deus a respeito do matrimônio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor, que infelizmente, não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, que só um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões.
A graça do Sacramento oferece aos esposos esta força superior de amor, que pode corroborar o empenho da fidelidade também nas circunstâncias difíceis. Segundo a interpretação dos autores cristãos, o milagre de Caná contém, além disso, um profundo significado eucarístico. Realizando-o na proximidade da solenidade da Páscoa judaica (cf. Jo. 2, 13), Jesus manifesta, como na multiplicação dos pães (cf. Jo. 6, 4), a intenção de preparar o verdadeiro banquete pascal, a Eucaristia. Esse desejo, nas bodas de Caná, parece sublinhado ainda mais pela presença do vinho, que alude ao sangue da Nova aliança, e pelo contexto de um banquete. Desse modo Maria, depois de ter estado na origem da presença de Jesus na festa, obtém o milagre do vinho novo, que prefigura a Eucaristia, sinal supremo da presença do seu Filho ressuscitado entre os discípulos.
4. No final da narração do primeiro milagre de Jesus, que se tornou possível pela fé sólida da Mãe do Senhor no seu divino Filho, o evangelista João conclui: "Os Seus discípulos acreditaram n'Ele" (2, 11). Em Caná Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos. A sua perseverante intercessão encoraja, além disso, aqueles que às vezes se encontram diante da experiência do "silêncio de Deus". Eles são convidados a esperar para além de toda a esperança, confiando sempre na bondade do Senhor.
"Filho, eis aí a tua Mãe"

1. Depois de ter confiado João a Maria com as palavras: "Mulher, eis aí o teu filho!", Jesus, do alto da cruz, dirige-se ao discípulo predileto, dizendo-lhe: "Eis aí a tua Mãe!" (Jo. 19, 26-27). Com esta expressão, Ele revela a Maria o vértice da sua maternidade: enquanto Mãe do Salvador, Ela é a mãe também dos remidos, de todos os membros do Corpo Místico do Filho.
A Virgem acolhe no silêncio a elevação a este máximo grau da sua maternidade de graça, tendo já dado uma resposta de fé com o seu "sim" na Anunciação.
Jesus não só recomenda a João que cuide de Maria com particular amor, mas confia-lhe para que a reconheça como a própria mãe.
Durante a última Ceia, "o discípulo a quem Jesus amava" escutou o mandamento do Mestre: "Que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei" (Jo. 15, 12) e, reclinando a cabeça no peito do Senhor, recebeu d’Ele um singular sinal de amor. Essas experiências prepararam-no para perceber melhor, nas palavras de Jesus, o convite a acolher Aquela que lhe é dada como mãe e a amá-la como Ele com ardor filial.
Oxalá (significa, "tomara que") todos descubram nas palavras de Jesus: "Eis aí a tua Mãe!", o convite a aceitar Maria como mãe, respondendo como verdadeiros filhos ao seu amor materno.
2. À luz dessa entrega ao discípulo predileto, pode-se compreender o sentido autêntico do culto mariano na comunidade eclesial. Este, de fato, põe os cristãos na relação filial de Jesus com a Sua mãe, colocando-os na condição de crescerem na intimidade com ambos.
O culto que a Igreja presta à Virgem não é apenas fruto duma iniciativa espontânea dos crentes, diante do valor excepcional da sua pessoa e da importância do seu papel na obra da salvação, mas baseia-se na vontade de Cristo.
As palavras "Eis aí a tua mãe!" exprimem a intenção de Jesus de suscitar nos discípulos uma atitude de amor e confiança para com Maria, conduzindo-os a reconhecer n’Ela a própria mãe, a mãe de todos os crentes.
Na escola da Virgem os discípulos aprendem, como João, a conhecer profundamente o Senhor e a realizar uma íntima e perseverante relação de amor com Ele. Descobrem, além disso, a alegria de se confiarem ao amor materno da Mãe, vivendo como filhos afetuosos e dóceis.
A história da piedade cristã ensina que Maria é a via que leva a Cristo, e que a devoção filial para com Ela nada tira à intimidade com Jesus, antes, a aumenta e a conduz a altíssimos níveis de perfeição.
Os inúmeros santuários marianos espalhados pelo mundo estão a testemunhar as maravilhas operadas pela Graça, por intercessão de Maria, mãe do Senhor e nossa mãe.
Recorrendo a Ela, atraídos pela sua ternura, também os homens e as mulheres do nosso tempo encontram Jesus, Salvador e Senhor da vida deles.
Sobretudo os pobres, provados no íntimo, nos afetos e nos bens, ao encontrarem refúgio e paz junto da Mãe de Deus, redescobrem que a verdadeira riqueza consiste para todos na graça da conversão e do seguimento de Cristo.
3. O texto evangélico, segundo o original grego, prossegue: "Desde aquela hora o discípulo acolheu-a entre os seus bens" (Jo. 19, 27) pondo, assim, em realce a pronta e generosa adesão de João às palavras de Jesus e informando-nos acerca do comportamento, por ele mantido durante a vida toda, como fiel guardião e dócil filho da Virgem.
A hora do acolhimento é a da realização da obra de salvação. Precisamente nesse contexto, têm início a maternidade espiritual de Maria e a primeira manifestação do novo ligame entre Ela e os discípulos do Senhor.
João acolheu a Mãe "entre os seus bens". Esta expressão bastante genérica parece evidenciar a sua iniciativa, cheia de respeito e de amor, não só de hospedar Maria em sua casa, mas sobretudo de viver a vida espiritual em comunhão com Ela. Com efeito, a expressão grega, literalmente traduzida "entre os seus bens", não indica tanto os bens materiais pois João "como observa Santo Agostinho (In loan. Evang. tract. 119, 3) 'não possuía nada', quanto os bens espirituais ou dons recebidos de Cristo: a graça (Jo. 1, 16), a Palavra (Jo. 12, 48; 17, 8), o Espírito (Jo. 7, 39; 14, 17), a Eucaristia (Jo. 6, 32-58)"... Entre estes dons, que lhe derivam do fato de ser amado por Jesus, o discípulo acolhe Maria como mãe, estabelecendo com Ela uma profunda comunhão de vida (cf. RM, 45, nota 130).
Possa cada cristão, a exemplo do discípulo predileto, "receber Maria em sua casa", dar-lhe espaço na própria existência quotidiana, reconhecendo o seu papel providencial no caminho da salvação.

A Assunção de Nossa Senhora foi
transmitida pela tradição escrita e oral da Igreja. Ela não se encontra
explicitamente na Sagrada Escritura, mas está implícita.
Analisemos o fato histórico, segundo é contato pelos primeiros cristãos e
transmitido pelos séculos de forma inconteste.
Na ocasião de Pentecostes, Maria Santíssima tinha mais ou menos 47 anos de
idade. Depois desse fato, permaneceu Ela ainda 25 anos na terra, para educar e
formar, por assim dizer, a Igreja nascente, como outrora ela educara, protegera,
e dirigira a infância do Filho de Deus.
Ela terminou sua "carreira mortal" na idade de 72 anos, conforme a opinião mais
comum.
A morte de Nossa Senhora foi suave, chamada de "dormição".
Quis Nosso Senhor dar esta suprema consolação à sua Mãe Santíssima e aos seus
apóstolos e discípulos que assistiram a "dormição" de Nossa Senhora, entre os
quais se sobressai S. Dionísio Aeropagita, discípulo de s. Paulo e primeiro
Bispo de Paris, o qual nos conservou a narração desse fato.
Diversos Santos Padres da Igreja contam que os Apóstolos foram milagrosamente
levados para Jerusalém na noite que precedera o desenlace da Bem-aventurada
Virgem Maria.
S. João Damasceno, um dos mais ilustres doutores da Igreja Oriental, refere que
os fiéis de Jerusalém, ao terem notícia do falecimento de sua Mãe querida, como
a chamavam, vieram em multidão prestar-lhe as últimas homenagens e que logo se
multiplicaram os milagres em redor da relíquia sagrada de seu corpo.
Três dias depois chegou o Apóstolo S. Tomé, que a Providência divina parecia ter
afastado, para melhor manifestar a glória de Nossa Senhora, como dele já se
servira para manifestar o fato da ressurreição de Nosso Senhor.
S. Tomé pediu para ver o corpo de Nossa Senhora.
Quando retiraram a pedra, o corpo já não mais se encontrava.
Do túmulo se exalava um perfume de suavidade celestial!
Como o seu Filho e pela virtude de seu Filho, a Virgem Santa ressuscitara ao
terceiro dia. Os anjos retiraram o seu corpo imaculado e o transportaram ao céu,
onde ele goza de uma glória inefável.
Nada é mais autêntico do que estas antigas tradições da Igreja sobre o mistério
da Assunção da Mãe de Deus, encontradas nos escritos dos Santos Padres e
Doutores da Igreja, dos primeiros séculos, e relatadas no Concílio geral de
Calcedônia, em 451.
Como Nossa Senhora era isenta do 'pecado original', ela estava imune à sentença
de morte (conseqüência da expulsão do paraíso terrestre). Todavia, por não ter
acesso à "árvore da vida" (que ficava no paraíso terrestre), Maria Santíssima
teria que passar por uma "morte suave" ou uma "dormição".
Por um privilégio especial de Deus, acredita-se que Nossa Senhora não precisaria
morrer se assim o desejasse, ainda que não tivesse acesso à "árvore da vida".
Tudo isso, é claro, ainda poderá ser melhor explicado com o tempo, quando a
Igreja for explicitando certos mistérios relativos à Santíssima Virgem Maria que
até hoje permanecem.
Muito pouco ainda descobrimos sobre a grandeza de Nossa Senhora, como bem disse
S. Luiz Maria G. de Montfort em seu livro "Tratado da Verdadeira Devoção à
Santíssima Virgem".
É certo que Nossa Senhora escolheu passar pela morte, mesmo não tendo
necessidade.
Quais foram, então, as razões da escolha da morte por Nossa Senhora?
Pode-se levantar várias hipóteses. O Pe. Júlio Maria (da década de 40) assinala
quatro:
1) Para refutar, de antemão, a heresia dos que mais tarde pretenderiam que Maria
Santíssima não tivesse sido uma simples criatura como nós, mas pertencesse à
natureza angélica.
2) Para em tudo se assemelhar ao seu divino Filho.
3) Para não perder os merecimentos de aceitação resignada da morte.
4) Para nos servir de modelo e ensinar a bem morrer.
Podemos, pois, resumir esta doutrina dizendo que Deus criou o homem mortal. Deus
deu a Maria Santíssima não o direito (por não ter acesso à "Árvore da vida"),
mas o privilégio, de ser imortal. Ela preferiu ser semelhante ao seu Filho,
escolhendo voluntariamente a morte, e não a padecendo como castigo do pecado
original que nunca tivera.
Analisemos, agora, a Ressurreição de Maria Santíssima.

Os Apóstolos, ao abrirem o túmulo da Mãe de Deus para satisfazer a piedade de
São Tomé e ao desejo deles todos, não encontrando mais ali o corpo de Nossa
Senhora, deduziram e perceberam que Ela havia ressuscitado!
Não era preciso ver à ressurreição para crer no fato, era uma dedução lógica
decorrente das circunstâncias celestiais de sua morte, de sua santidade, da
dignidade de Mãe de Deus, da sua Imaculada Conceição, da sua união com o
Redentor, tudo isso constituía uma prova irrefutável da Assunção de Nossa
Senhora.
A Assunção difere da ascensão de Nosso Senhor no fato de que, no segundo caso,
Nosso Senhor subiu por seu próprio poder, enquanto sua Mãe foi assunta ao Céu
pelo poder de Deus.
Ora, há vários argumentos racionais em favor da Assunção de Nossa Senhora.
Primeiramente, havendo entrado de modo sobrenatural nesta vida, seria normal que
saísse de forma sobrenatural, esse é um princípio de harmonia nos atos de Deus.
Se Deus a quis privilegiar com a Imaculada Conceição, tanto mais normal seria
completar o ato na morte gloriosa.
Depois, a morte, como diz o ditado latino: "Talis vita, finis ita", é um eco da
vida. Se Deus guardou vários santos da podridão do túmulo, tornando os seus
corpos incorruptos, muito mais deveria ter feito pelo corpo que o guardou
durante nove meses, pela pele que o revestiu em sua natureza humana, etc.
Nosso Senhor tomou a humanidade do corpo de sua Mãe. Sua carne era a carne de
sua Mãe, seu sangue era o sangue de sua Mãe, etc. Como permitir que sua carne,
presente na carne de sua santíssima Mãe, fosse corrompida pelos vermes e tragada
pela terra? Ele que nasceu das entranhas amorosíssimas de Maria Santíssima
permitiria que essas mesmas entranhas sofressem a podridão do túmulo e o
esquecimento da morte? Seria tentar contra o amor filial mais perfeito que a
terra já conheceu. Seria romper com o quarto mandamento da Lei de Deus, que
estabelece "Honrar Pai e Mãe".
Qual filho, podendo, não preservaria sua Mãe da morte?
A dignidade de Filho de Deus feito homem exigia que não deixasse no túmulo
Aquela de quem recebera o seu Corpo sagrado. Nosso Senhor Jesus Cristo, por
assim dizer, preservando o corpo de Maria Santíssima, preservava a sua própria
carne.
Ainda podemos levantar o argumento da relação imediata da paixão do Filho de
Deus e da compaixão da Mãe de Deus, promulgada, de modo enérgico, no Evangelho,
pela profecia de S. Simeão falando à própria Mãe: "Eis que este menino está
posto para a ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E
uma espada transpassará a tua alma" (Luc. 2, 34, 45).
Esta tradução em vernáculo (português, no caso) é larga. O texto latino (em
latim) tem uma variante que parece ir além do texto em português. "Et tuam
ipsius animam pertransibit glaudius" - o que quer dizer literalmente: o mesmo
gládio transpassará a alma dele e a vossa.
Como seria possível que o Filho, tendo sido unido à sua Mãe em toda a sua vida,
na sua infância e na sua dor, não se unisse à Ela na sua glória?
Tudo isso se levanta dos Evangelhos.
A Assunção de Maria Santíssima foi sempre ensinada em todas as escolas de
teologia e não há vós discordante entre os Doutores. A Assunção é como uma
conseqüência da encarnação do Verbo.
Se a Virgem Imaculada recebeu outrora o Salvador Jesus Cristo, é justo que o
Salvador, por sua vez, a receba. Não tendo Nosso Senhor desdenhado descer ao seu
seio puríssimo, deve elevá-la agora, para partilhar com Ela a sua glória.
Cristo recebeu sua vida terrena das mãos de Maria Santíssima. Natural é que Ela
receba a Vida Eterna das mãos de seu divino Filho.
Além de conservar a harmonia em sua própria obra, Deus devia continuar
favorecendo a Virgem Imaculada, como Ele o fez, desde a predestinação até a hora
de sua morte.
Ora, podendo preservar da corrupção do túmulo a sua santa Mãe, tendo poder para
fazê-la ressuscitar e para levá-la ao céu em corpo e alma, Deus devia fazê-lo,
pois Ele devia coroar na glória aquela que já coroara na terra... Dessa forma, a
Santíssima Mãe de Deus continuava a ser, na glória eterna, o que já fora na
terra: "a mãe de Deus e a mãe dos homens".
Tal se nos mostra Maria na glória celestial, como cantava o Rei de sua Mãe,
assim canta Deus de Nossa Senhora: "Sentada à direita de seu Filho querido" (3
Reis, 2, 19), "revestida do sol" (Apoc. 12, 1), cercada de glória "como a glória
do Filho único de Deus" (Jo. 1, 14), pois é a mesma glória que envolve o Filho e
a Mãe! Ele nos aparece tão belo! E ela como se nos apresenta suave e terna em
seu sorriso de Mãe, estendendo-nos os braços, num convite amoroso, para que
vamos a Ela e possamos um dia partilhar de sua bem-aventurança!